15.4.07

A revista Época, na edição 277, de 8/9/2003, publicou - exclusivamente online - um trecho do livro Do Paraíso ao Poder, de Robert Kagan. Imagino que a tradução esteja boa, pois o repórter não baixou o sarrafo. Na ficha do livro, não há nenhuma indicação de que o livro é traduzido:



Título
Do Paraíso e do Poder
Autor
Robert Kagan
Editora
Rocco
Preço e Páginas
R$ 22/112

(in http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT597644-1661-2,00.html)

Aqui está o trecho publicado pela revista. Não fui mencionada, mas a tradução é minha:


Já é tempo de parar de fingir que os europeus e os norte-americanos têm a mesma visão de mundo, ou que habitam o mesmo mundo. Na importantíssima questão do poder, da eficácia do poder, da moralidade do poder, da vontade de poder - as perspectivas norte-americanas e européia divergem. A Europa está afastando-se do poder, ou, em outras palavras, está caminhando para além do poder, rumo a um mundo isolado repleto de leis, normas, negociações e cooperações internacionais. Está entrando num paraíso pós-histórico de paz e relativa prosperidade, a concretização da 'paz perpétua' de Immanuel Kant. Os Estados Unidos, entretanto, continuam chafurdando na história, exercendo o poder num mundo hobbesiano anárquico, onde as leis e as diretrizes internacionais não são dignas de confiança, a verdadeira segurança, a defesa e a promoção da ordem liberal ainda dependem da posse e do uso do poderio militar. É por isso que, nas principais questões estratégicas e internacionais da atualidade, os norte-americanos são de Marte e os europeus são de Vênus. Têm poucos pontos em comum e seu entendimento mútuo é cada vez menor. E essa situação não é transitória - produto de eleições nos EUA ou de algum acontecimento catastrófico. Os motivos do cisma transatlântico são profundos, de longa evolução e com probabilidade de serem duradouros. No tocante à definição de prioridades nacionais, de ameaças, desafios, e de elaboração e implantação de políticas internacionais e de defesa, os Estados Unidos e a Europa tomaram rumos distintos.

É mais fácil perceber a diferença quando se é norte-americano vivendo na Europa. Os europeus estão mais conscientes das diferenças cada vez maiores, talvez por temê-las mais que os americanos. Os intelectuais europeus são praticamente unânimes na convicção de que americanos e europeus não compartilham mais uma 'cultura estratégica' em comum. A caricatura européia, em seu aspecto mais radical, expõe os Estados Unidos dominados por uma 'cultura da morte', seu temperamento belicoso, que é produto natural de uma sociedade violenta, onde todos os cidadãos possuem armas de fogo e na qual predomina a pena de morte. Mesmo aqueles, porém, que não fazem essa associação rude concordam que há diferenças profundas no modo como os Estados Unidos e a Europa conduzem a política internacional.

Os Estados Unidos, afirmam, recorrem à força com mais rapidez e, em comparação com a Europa, têm menos paciência com a diplomacia. Os norte-americanos em geral vêem o mundo dividido entre o bem e o mal, entre amigos e inimigos, ao passo que os europeus enxergam um quadro mais complexo. Quando enfrentam adversários reais ou prováveis, os norte-americanos costumam preferir políticas de coerção, em vez de persuasão; salientam sanções punitivas, em detrimento do incentivo a melhor comportamento, preferem o castigo à recompensa. Os americanos costumam procurar finalidade nas questões internacionais. Querem que os problemas sejam resolvidos e as ameaças, eliminadas. E, naturalmente, cada vez mais se inclinam na direção do unilateralismo nos assuntos internacionais. Estão menos propensos a agir por intermédio de instituições internacionais como a ONU, são menores as probabilidades de colaboração com outros países para encontrar objetivos em comum, estão mais céticos no tocante ao direito internacional e mais dispostos a fugir de sua rigidez quando julgam necessário, ou apenas útil.

Os europeus fazem questão de afirmar que tratam dos problemas com mais delicadeza e requinte. Tentam exercer sua influência por meio de sutileza e dissimulação. São mais tolerantes com as falhas, mais pacientes quando as soluções não aparecem rapidamente. Em geral, defendem reações pacíficas aos problemas, preferem a negociação, a diplomacia e a persuasão à força. Recorrem mais depressa ao direito internacional, às convenções internacionais e à opinião internacional antes de arbitrar litígios. Tentam empregar os laços econômicos e comerciais para unir os países. É comum darem mais ênfase ao processo que ao resultado; acreditam que, no fim das contas, o processo pode concretizar-se.

Esse retrato da Europa é uma caricatura dupla, naturalmente, com sua parcela de exageros e supersimplificações. Não se pode generalizar no tocante aos europeus: os britânicos têm uma opinião mais 'norte-americana' acerca do poder do que muitos europeus continentais. Sua recordação do império, a 'relação especial' com os Estados Unidos, nascida durante a Segunda Guerra Mundial e no início da Guerra Fria, e sua posição historicamente indiferente em relação ao restante da Europa costuma afastá-los. Nem se pode simplesmente agrupar França e Alemanha: aquela, orgulhosa e independente, mas sua insegurança é surpreendente; esta mistura confiança e insegurança desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os países da Europa Central e do Leste europeu, entretanto, tem uma história completamente diferente daquela de seus vizinhos ocidentais; um medo com raízes históricas do poderio russo e, em conseqüência disso, uma perspectiva mais norte-americana acerca das realidades hobbesianas. E, naturalmente, há perspectivas internas divergentes em países de ambos os lados do Atlântico. Os gaullistas franceses não são iguais aos socialistas franceses. Nos Estados Unidos, os Democratas muitas vezes parecem mais 'europeus' que os Republicanos; o secretário de Estado Colin Powell talvez pareça mais 'europeu' que o secretário da Defesa Donald Rumsfeld. Muitos americanos, em especial os da elite intelectual, incomodam-se tanto com a 'dureza' da política internacional dos EUA quanto qualquer europeu, e alguns europeus atribuem tanto valor ao poder quanto qualquer americano.

Não obstante, as caricaturas captam uma verdade essencial: os Estados Unidos e a Europa são hoje fundamentalmente diferentes.

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