Resenha de Imperatriz Orquídea
Esta resenha foi publicada no Armazém Literário em dezembro de 2006 e eu a reproduzo aqui porque a internet é uma rede efêmera e essas coisas acabam desaparecendo depois de algum tempo.
Mas o que há de especial em uma resenha de livro traduzido por mim, tendo eu traduzido dezenas e dezenas de livros nesses quase 30 anos de carreira? É simples: já li resenhas de muitos livros traduzidos por mim, mas ninguém menciona quem traduziu e muito menos que seja tradução. Quando isso acontece considero um elogio, pois o tradutor é sempre mencionado quando a tradução é ruim. O que há de inédito na resenha abaixo é que, além de mencionar quem traduziu, ainda faz um elogio à tradução. Foi por isso que resolvi arquivá-la com carinho e em agradecimento ao autor (que não conheço).
O autor da resenha também merece um elogio e uma medalha de honra ao mérito por não ter sucumbido ao maldito por antes do nome do autor e depois de substantivo (como no caso de tradução). Ele passa a figurar na minha lista de resenhistas recomendados.
Orquídea Selvagem
Cadorno Teles
Imperatriz Orquídea
Editora Rocco (2006)
Anchee Min
Tradução de Jussara Simões
China imperial, metade do século XIX. Período em que o Império chinês sofria com o comércio do ópio, com os invasores estrangeiros e com rebeliões camponesas. Esse é o tempo em que o declínio do Império do Dragão se inicia e onde a narrativa do livro Imperatriz Orquídea começa. Escrito pela chinesa Anchee Min, o romance narra a história de Tsu Hsi (1834-1908), última imperatriz da China. Lançado pela editora Rocco - com a brilhante tradução de Jussara Simões, chega às livrarias como uma espécie de peça companheira do “jogo da verdade” que Min iniciou com A construção de Madame Mao, seu romance anterior, publicado sem a censura do Partido Comunista chinês.
Anchee Min uniu pesquisa e romance nesse livro, tentando assim desmistificar a figura maléfica da última imperatriz da Dinastia Ching, considerada por muitos como uma das mulheres mais odiada da História Chinesa. Tsu Hsi governou a vasta nação por quarenta e seis anos, e foi alvo tanto da imprensa ocidental quanto da Revolução Comunista de Mao Tse-tung que, durante a década de 1930, denegriram sua imagem.
Em uma versão bem sensível e humana, Min apresenta a trajetória da jovem Orquídea, ou Yehonala, futura Tsu Hsi, filha de um oficial endividado da aristocrática etnia Manchu. Para salvar a família da pobreza depois da morte de seu pai, e evitar seu casamento com um primo retardado, ela participa do concurso que escolheria as esposas do imperador Hsien Feng. Na Cidade Proibida, entre centenas de esposas e concubinas que lutavam pela atenção do imperador e para ter um filho com ele, a moça aprende a lidar com a estrutura hierarquizada da Corte, bem como com o ambiente erótico e ritual daquele lugar. Logo se transforma em mulher forte, inteligente e bonita, que usa esses artifícios para se tornar a preferida de Hsien Fenn, além de sua confidente e amante.
A China do Imperador Hsien Fenn, no entanto, perdia seu esplendor. Em toda parte surgiam problemas, camponeses sofriam da estiagem em algumas províncias, rebeliões pipocavam em várias partes do território chinês e os estrangeiros, capitaneados pela Inglaterra e Rússia, reivindicavam posses, fatiando o país entre si. Ainda assim a grandiosidade se mantinha, com esbanjamento e luxo, enquanto o governo pendia à beira do abismo.
Para o jovem imperador, uma notícia o fez ficar feliz. Quando Orquídea deu à luz, em 1856, ao seu único filho, Tung Chih, ele a nomeou, em decreto oficial a valer após sua morte, em 1861, imperatriz regente. Com a idade de 26 anos, ela herda um império à beira do colapso. Min descreve os esforços de Tsu Hsi perante os estrangeiros e os conselheiros que não a aceitavam como imperatriz. Depois de ser seqüestrada junto com o filho, e da invasão inglesa em Pequim, Orquídea derrota os regentes provisórios e cria seu próprio governo, que durará mais de quatro décadas.
Imperatriz Orquídea é uma leitura fictícia, mas a autora assegura ao leitor que sua pesquisa é extensiva e tão verdadeira quanto a "verdade" pode ser. Rica em detalhes, Min descreve a vida suntuosa da corte, com seus jardins maravilhosos, palácios impecáveis, um mundo que une a natureza aos prédios da Cidade Proibida. A poesia, a ópera, a participação dos eunucos na sociedade imperial são vistos com igual requinte, demonstrando a capacidade da autora de levar o leitor às salas luxuosas dos palácios e à harmonia dos jardins, cheios de pássaros e dos lagos serenos.
Mas a verdade é que a tradição chinesa ensina para as mulheres que elas são como grama, nascem para serem pisadas. Anchee Mim tenta, com seu trabalho, modificar essa tradição, mostrando ao leitor que houve uma mulher que desafiou o tradicionalismo chinês e foi deturpada pelo Partido Comunista; mas também que Tsu Hin, a Imperatriz Orquídea, era uma mulher apaixonada, uma mãe e uma pioneira da reforma - tão vibrante e atormentada quanto a própria China.
(URL: http://www.armazemliterario.com.br/article.php3?id_article=251)

